Alcoolismo

Tratamento de Alcoolismo com psiquiatra em Brasília

A “cervejinha para relaxar” depois do trabalho era um ritual sagrado para André. No início, era apenas na sexta-feira. Depois, o estresse da semana pedia uma na quarta também. Com o tempo, qualquer dia difícil se tornou um pretexto. A dose única virou duas, três, quatro. Ele começou a beber antes de eventos sociais para “se soltar”, e a esconder garrafas em casa para evitar os olhares de julgamento da esposa. André não bebia mais para relaxar; ele bebia para não se sentir mal. Aquele alívio momentâneo havia se tornado uma necessidade constante e, sem que ele percebesse, uma prisão.

A história de André é a jornada clássica do Transtorno por Uso de Álcool, popularmente conhecido como alcoolismo. Não é uma questão de falta de caráter, de força de vontade ou uma falha moral. É uma doença cerebral crônica e progressiva, que sequestra os circuitos de recompensa, motivação e autocontrole. É uma condição médica que altera a biologia do cérebro, tornando a escolha de não beber uma batalha difícil de vencer sozinho.

Se essa luta ressoa com a sua história ou a de alguém que você ama, meu trabalho como psiquiatra é, primeiro, desconstruir a culpa. Depois, precisamos apresentar o arsenal de ferramentas científicas que temos hoje para quebrar esse ciclo e ajudá-lo a reconstruir uma vida onde a liberdade não está no fundo de um copo.

O que é o alcoolismo? uma doença do cérebro e do comportamento

O álcool atua no cérebro estimulando a liberação de dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa. No início, o cérebro “gosta” do álcool. Com o uso repetido e excessivo, o cérebro se adapta. Ele passa a produzir menos dopamina naturalmente e se torna menos sensível a ela. O resultado? Você precisa de mais álcool para sentir o mesmo prazer (tolerância) e, pior, passa a se sentir mal, ansioso e deprimido sem ele (abstinência).

Neste ponto, a motivação para beber muda. Você não bebe mais em busca do prazer; você bebe para aliviar o desprazer. O cérebro não apenas “gosta”, ele “precisa”. É aqui que o transtorno se instala. O córtex pré-frontal, nosso “CEO” responsável pelo julgamento e controle de impulsos, perde o controle para áreas mais primitivas do cérebro, que gritam por alívio imediato. A compulsão assume o comando.

Os sinais do transtorno por uso de álcool

O diagnóstico é clínico e se baseia na presença de um padrão problemático. Alguns dos critérios incluem:

  • Beber em maiores quantidades ou por mais tempo do que o pretendido.
  • Desejo persistente ou esforços fracassados para diminuir ou controlar o uso.
  • Gastar muito tempo em atividades para obter, usar ou se recuperar do álcool.
  • Fissura (craving): um forte desejo ou necessidade de beber.
  • Uso recorrente resultando em fracasso para cumprir obrigações no trabalho, escola ou em casa.
  • Continuar a usar apesar de ter problemas sociais ou interpessoais persistentes causados ou exacerbados pelo álcool.
  • Desenvolvimento de tolerância e/ou sintomas de abstinência.
Um copo de bebida projetando uma sombra de correntes, simbolizando como o alcoolismo transforma o prazer em uma prisão.

Minha abordagem de tratamento para o alcoolismo

O tratamento da dependência de álcool é multifacetado e precisa ser individualizado. O objetivo não é apenas a abstinência, mas a manutenção da sobriedade com qualidade de vida.

Tratamento medicamentoso: o suporte biológico para a sobriedade

Hoje, a medicina nos oferece medicamentos para intervir diretamente na neurobiologia da dependência. Elas não são uma “cura mágica”, mas um suporte fundamental que aumenta drasticamente as chances de sucesso.

  • Manejo da Abstinência: A retirada abrupta do álcool em um dependente pode ser perigosa, causando desde tremores, ansiedade até convulsões e o grave Delirium Tremens. Essa fase inicial, quando necessária, é manejada em ambiente seguro com medicamentos como os benzodiazepínicos, para garantir uma desintoxicação segura.
  • Prevenção de Recaídas: Esta é a base do tratamento a longo prazo. Atualmente, temos uma medicação sendo comercializada no Brasil para esse fim:
    • Naltrexona: Atua bloqueando os receptores opióides no cérebro. Em termos simples, ela tira a “recompensa” e o prazer do ato de beber. Se a pessoa bebe, ela não sente aquela onda de bem-estar, o que ajuda a quebrar o ciclo de reforço positivo.
  • Tratamento de comorbidades: É muito comum que pessoas com alcoolismo sofram com comorbidades, como depressão, insônia, ansiedade, TDAH ou bipolaridade. Com isso, o tratamento medicamentoso destas condições, se presentes, é peça fundamental no tratamento.
Ilustração de um cérebro onde um medicamento acalma a "tempestade da fissura", simbolizando o tratamento farmacológico do alcoolismo.

Psicoterapia e grupos de apoio: reconstruindo os hábitos e a vida

Se a medicação trata o cérebro, a psicoterapia trata a pessoa. Ela é essencial para desenvolver as estratégias necessárias para viver em um mundo cheio de gatilhos.

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Ajuda o paciente a identificar as situações de alto risco, a desenvolver habilidades para lidar com a fissura e a mudar os padrões de pensamento que levam ao consumo.
  • Entrevista Motivacional: Uma abordagem que ajuda o paciente a encontrar e fortalecer sua própria motivação interna para a mudança, em vez de impor a sobriedade.
  • Grupos de Apoio (como Alcoólicos Anônimos – AA): O poder da comunidade é imensurável. Grupos como o AA oferecem um suporte de pares, um programa estruturado (os 12 passos) e a compreensão de pessoas que viveram a mesma luta. A conexão com outros em recuperação é um dos mais fortes pilares da sobriedade a longo prazo.

O caminho da sobriedade: uma vida para além da garrafa

Recuperar-se do alcoolismo é uma jornada para a vida toda. Envolve aprender a celebrar, a lidar com o estresse, a se conectar com as pessoas e a sentir prazer de formas que não envolvam o álcool. É um processo de reconstrução, de redescobrir quem você é sem a substância que, por tanto tempo, definiu sua rotina.

André, nosso personagem, com a ajuda de medicação que diminuiu sua fissura e o suporte da terapia e do AA, aprendeu a encontrar alívio na corrida, prazer na companhia sóbria dos amigos e força na sua própria resiliência. A jornada não é fácil, mas a liberdade de ser o mestre de suas próprias escolhas, e não um escravo da compulsão, é a maior recompensa. Se você tem lutado contra o vício ou uso abusivo de álcool, procure um profissional qualificado para te ajudar a vencer esse desafio.

Amigos brindando com bebidas não alcoólicas, simbolizando a alegria e as conexões sociais recuperadas no tratamento do alcoolismo.

Perguntas frequentes sobre o alcoolismo

1. Se eu bebo todos os dias, sou alcoólatra?
Não necessariamente. O diagnóstico não se baseia na frequência ou quantidade, mas na perda de controle e nas consequências negativas. Uma pessoa pode beber diariamente de forma controlada, enquanto outra pode beber apenas nos fins de semana, mas de forma completamente descontrolada e com graves prejuízos.

2. Não consigo simplesmente “beber socialmente” ou diminuir a quantidade?
Para uma pessoa que já desenvolveu o Transtorno por Uso de Álcool moderado ou grave, a tentativa de retornar a um padrão de “uso controlado” é, na grande maioria dos casos, irrealista e insustentável a longo prazo. O cérebro já foi modificado pela dependência, e a abstinência completa costuma ser o caminho mais seguro para a recuperação.

3. O alcoolismo é genético?
A genética desempenha um papel significativo, sim. Ter parentes de primeiro grau com alcoolismo aumenta consideravelmente o risco de uma pessoa desenvolver o transtorno. No entanto, os fatores ambientais e sociais também são cruciais. A genética “carrega a arma”, mas o ambiente “puxa o gatilho”.

4. Como ajudar um familiar que não admite que tem um problema?
É uma situação muito delicada. Evite confrontos agressivos ou sermões. Busque você mesmo ajuda em grupos como o Al-Anon, que são para familiares de alcoólicos. Aprenda sobre a doença e sobre como estabelecer limites saudáveis. Aborde a pessoa em um momento de sobriedade, expressando sua preocupação com fatos concretos (“fiquei preocupado quando você…”) em vez de julgamentos (“você é um alcoólatra”). Ofereça ajuda para buscar um profissional, mas saiba que você não pode forçar a mudança.

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Tratamento especializado em Alcoolismo com psiquiatra em Brasília
“O papel do psiquiatra não é apenas medicar. É construir com o paciente um caminho de volta para o equilíbrio emocional, usando a ciência como base e os valores individuais como bússola.”

Dr. Andrey Rocca
Médico psiquiatra